Otavio Lilla, CEO da Mistral, detalha como a inflação, o clima e o novo perfil dos jovens consumidores redesenham o futuro da bebida no mundo e no Brasil.

O setor global de vinhos atravessa um período de grande instabilidade, caracterizado por uma queda acentuada nas vendas e o acúmulo de estoques em países como França, Itália, Portugal e Espanha. Essa conjuntura tem sido acompanhada de perto por especialistas do mercado, que buscam entender as complexas variáveis em jogo.

No Brasil, a situação mostra-se um pouco diferente, com o mercado mantendo a estabilidade. Esse cenário positivo é impulsionado, em parte, pelo crescente interesse dos consumidores por vinhos nacionais, contrariando a tendência global de declínio.

Contudo, um fenômeno transversal e inegável é a diminuição do consumo de álcool entre as gerações mais jovens, um fator-chave na análise da crise. Otavio Lilla, de 48 anos, CEO da Mistral, uma das maiores importadoras de vinhos premium do país, oferece sua perspectiva sobre essa crise multifacetada, conforme informação divulgada por NeoFeed.

A "Tempestade Perfeita" que Abala a Indústria do Vinho

Otavio Lilla descreve o cenário atual como uma "tempestade perfeita". Segundo ele, a crise não se limita à queda no consumo europeu, mas é agravada pela inflação dos insumos básicos, como vidro e rolhas, que elevam significativamente os custos de produção. Essa pressão de preços faz com que o vinho se torne menos acessível, especialmente para as novas gerações, que, embora não necessariamente desinteressadas pela bebida, enfrentam barreiras financeiras.

Além disso, a perda de mercados estratégicos como China e Rússia, que representavam um grande volume de vendas, e as tarifas impostas pelos Estados Unidos durante a administração Trump, impactaram o maior mercado consumidor de vinhos do mundo. Todos esses fatores combinados criam um ambiente desafiador para os produtores globais.

Jovens e o Dilema dos Vinhos Zero Álcool

Um dos aspectos mais discutidos no setor é a mudança no comportamento de consumo das gerações Millennials e Geração Z, que demonstram menor interesse em bebidas alcoólicas. Diante dessa realidade, muitos produtores têm investido em rótulos zero álcool, impulsionados pelo sucesso da cerveja sem álcool.

No entanto, Lilla é cético em relação a essa tendência no vinho. Ele afirma que há "mais impulso dos produtores no vinho zero álcool do que do consumidor". Na sua avaliação, a qualidade desses produtos ainda é precária, com exceção de alguns espumantes. O processo de desalcoolização é considerado "muito agressivo e caro", resultando em vinhos desequilibrados e sem a complexidade desejada pelos apreciadores.

Impactos Climáticos e Tributários no Setor Vinícola

As mudanças climáticas representam outro desafio monumental para a produção de vinho. Lilla destaca que, se antes a dificuldade era fazer a uva amadurecer, hoje o cenário é o oposto. O aumento das temperaturas globais acelera a maturação da uva, eleva o nível alcoólico e antecipa a colheita. Em 2024, regiões como a Borgonha enfrentaram safras mínimas devido a chuvas excessivas e fungos, enquanto outros locais sofrem com secas e incêndios.

No âmbito tributário, o acordo Europa-Mercosul prevê a redução gradual do imposto sobre vinhos europeus de 27% para zero em oito anos, atualmente em 24%. Embora o efeito no mercado brasileiro ainda seja mais psicológico, Lilla acredita que isso garantirá uma competição mais equitativa e beneficiará o consumidor. Contudo, a iminente reforma tributária no Brasil gera apreensão, com o risco de um imposto seletivo sobre álcool, cigarros e bebidas açucaradas.

Vinho como Status e Novas Tendências de Consumo

Apesar dos desafios, Otavio Lilla reafirma que o vinho continua sendo um símbolo de status no Brasil e no mundo. No entanto, ele pondera que, no contexto brasileiro, o alto custo da bebida a restringe a uma classe social reduzida. A percepção de que o vinho é uma "bebida de velho" é secundária; o principal fator é financeiro, limitando o acesso dos jovens. O consumidor brasileiro típico, segundo Lilla, tem mais de 30 ou 40 anos e busca rótulos de maior valor agregado.

A Mistral, fundada em 1973 e adquirida por Ciro Lilla em 1991, é reconhecida por importar rótulos de prestígio, como Vega Sicilia e Gaja. Entre os mais cobiçados estão o Domaine Cécile Tremblay e o Château Rayas, este último com venda limitada a uma garrafa por CPF. O catálogo da importadora também inclui lançamentos como o Montrachet, do Domaine Leflaive, que pode custar cerca de R$ 34 mil a garrafa. Lilla também observa uma forte tendência de crescimento no consumo de vinhos brancos, que sucedeu o aumento da popularidade dos rosés, indicando um amadurecimento do mercado brasileiro.

Perguntas Frequentes

Qual o principal motivo da crise global do vinho?

A crise global do vinho é multifacetada, impulsionada pela queda no consumo na Europa, inflação nos custos de produção de insumos como vidro e rolha, a inacessibilidade financeira para as gerações mais jovens e a perda de mercados importantes como China e Rússia, além de tarifas comerciais.

Como as mudanças climáticas afetam a produção de vinho?

As mudanças climáticas provocam amadurecimento precoce das uvas, elevando os níveis alcoólicos e antecipando a colheita. Eventos extremos como chuvas intensas e fungos (Borgonha 2024) ou secas e incêndios (outras regiões) resultam em safras menores e de qualidade variável.

Por que Otavio Lilla não aprova vinhos zero álcool?

Otavio Lilla, CEO da Mistral, acredita que há mais investimento dos produtores em vinhos zero álcool do que demanda real do consumidor. Ele critica a baixa qualidade da maioria desses produtos, considerando o processo de produção agressivo, caro e resultando em bebidas desequilibradas.

O vinho ainda é um símbolo de status no Brasil?

Sim, Otavio Lilla afirma que o vinho continua sendo um símbolo de status no Brasil e globalmente. Contudo, no contexto brasileiro, o alto custo da bebida restringe seu consumo a uma pequena classe social, tornando-o financeiramente inacessível para a maioria dos jovens.

Quais tendências de consumo de vinho são observadas no mercado brasileiro?

No Brasil, há um notável aumento no consumo de vinhos brancos, seguindo uma tendência anterior de crescimento dos rosés. Além disso, o consumo de vinhos nacionais tem contribuído para a estabilidade do mercado, mesmo em um cenário global de crise.