Plano do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) visa equilibrar a demanda e oferta, diante do excesso de geração solar que ameaça a estabilidade da rede.

O Brasil vive um paradoxo no setor de energia: a crescente popularização da energia solar, que trouxe benefícios ambientais e econômicos, agora gera um desafio inesperado para a estabilidade da rede elétrica. A grande produção diurna das placas solares está criando um excesso de geração em momentos de baixo consumo, aumentando o risco de colapso no sistema.

Para evitar blecautes em todo o país, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está finalizando um novo mecanismo que permitirá o corte automático da produção de miniusinas fotovoltaicas em situações críticas. A medida, que deve ser implementada ainda este ano, surge após episódios recentes de risco, como a baixa demanda em feriados e no Dia dos Pais, que levaram o sistema ao limite.

A urgência é real: o ONS já realiza paradas forçadas em parques eólicos e solares de grande porte, além de cortes emergenciais em usinas menores. A nova estratégia representa mais uma camada de proteção para o sistema elétrico nacional, conforme informação divulgada por Brazil Journal.

A Ameaça do Excesso de Geração Solar na Rede

A expansão da geração de energia solar, especialmente em telhados e miniusinas, resultou em um cenário onde o sistema elétrico brasileiro enfrenta uma quantidade excessiva de energia injetada na rede durante o dia. Essa sobrecarga ocorre principalmente no início da tarde, quando a produção solar atinge seu pico e, muitas vezes, a demanda por energia está mais baixa, como em finais de semana ou feriados.

A falta de equilíbrio entre a geração e o consumo pode causar uma queda na frequência do sistema, levando a apagões generalizados. Alexandre Zucarato, diretor de planejamento do ONS, alertou sobre a situação: “A capacidade do sistema de suportar os vales de carga está chegando no limite. Estamos usando todas as medidas que podemos, com uma sequência de linhas de defesa.”

ERAG: O Novo Mecanismo de Corte Automático da ONS

Para mitigar esses riscos, o ONS está desenvolvendo o Esquema Regional de Alívio de Geração (ERAG). Este mecanismo permitirá o corte automático da geração de miniusinas solares em momentos onde não há capacidade suficiente no sistema para absorver o excedente de energia, mesmo após todas as ações manuais possíveis.

Zucarato explicou a função do ERAG: “Agora estamos terminando o desenvolvimento de um outro esquema, que seria mais uma rede de proteção. Seria um corte automático de geração. Para (ser usado) se naquele instante não cabe mais energia no sistema e tudo que poderia ter sido feito de forma manual já foi feito.” A princípio, o ERAG deve impactar cerca de 3 gigawatts de capacidade em miniusinas de geração solar remota, que poderão ter sua produção cortada “em escadinha” para reequilibrar a rede.

Desafios da Geração Solar Descentralizada e a 'Energia Invisível'

O Brasil já superou a marca de 51 gigawatts em potência instalada de energia solar, incluindo placas em telhados e miniusinas. No entanto, o ONS estima que existam outros 14 GW – o equivalente à potência de uma Usina de Itaipu – em geração solar que não está cadastrada nos sistemas das distribuidoras, tornando-a praticamente “invisível” para o controle operacional.

Essa dificuldade em monitorar e controlar parte da geração descentralizada agrava o problema da sobrecarga na rede. O diretor de planejamento do ONS reforçou que a medida não é inédita, comparando-a ao Esquema Regional de Alívio de Carga (ERAC), que desliga a energia de algumas áreas para evitar blecautes: “Não tem nada de extraordinário você cortar a geração de forma automática, pontualmente, também para evitar um blecaute.” A adoção do ERAG não exige aprovação do Governo ou da Aneel.

Próximos Passos e a Busca por Soluções Duradouras

O plano do ONS será apresentado às distribuidoras de energia em um workshop no próximo mês, buscando validar a viabilidade técnica das ações. A expectativa é que uma versão piloto do ERAG seja implementada até o final do ano. Uma vez adotada, as próprias distribuidoras serão as responsáveis por executar os cortes nas miniusinas que se enquadrem no plano, provavelmente as de maior porte e localizadas em regiões com alta concentração solar.

Enquanto o ONS busca gerenciar os impactos imediatos do crescimento da geração solar, especialistas apontam para a necessidade de soluções mais abrangentes. Um especialista resumiu: “o ONS está olhando o problema e redistribuindo seus impactos, mas alguém vai precisar, em algum momento, buscar uma solução.” O desafio é grande, pois as miniusinas e instalações solares em telhados continuam em expansão acelerada.

Perguntas Frequentes

O que é o ERAG?

O ERAG, ou Esquema Regional de Alívio de Geração, é um novo mecanismo desenvolvido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) que permitirá o corte automático da produção de miniusinas solares em momentos de excesso de geração na rede elétrica, visando evitar blecautes.

Por que o ONS vai cortar energia solar?

O ONS vai cortar a energia solar para equilibrar a oferta e a demanda na rede elétrica. A popularização das placas solares gerou um excesso de produção diurna que, em períodos de baixo consumo, ameaça a estabilidade do sistema e pode causar blecautes em grande escala.

Quais usinas serão afetadas pelos cortes?

O ERAG deverá afetar miniusinas de geração solar remota, com foco nas maiores instalações conectadas às distribuidoras em regiões de alta concentração de energia solar. A capacidade inicial a ser impactada é de cerca de 3 gigawatts.

O ONS precisa de autorização para implementar o ERAG?

Não, a medida em preparação pelo ONS não necessita de aprovação do Governo ou da Aneel. O ONS tem autonomia para realizar manobras operacionais essenciais para a segurança e a estabilidade do sistema elétrico nacional.