O avanço da inteligência artificial e da automação reaquece a discussão sobre a adequação dos sistemas tributários e o futuro do trabalho.

Quase uma década após sua primeira menção, a ideia de tributar robôs volta a ganhar força com a defesa de Bill Gates. Agora, o empresário expande a proposta para incluir a inteligência artificial, sugerindo taxar o uso da IA, inclusive por meio dos tokens — unidades de processamento dos modelos generativos.

Essa discussão não é isolada. Há anos, economistas e especialistas em tributação debatem como os modelos fiscais, tradicionalmente baseados em trabalho, renda, consumo e propriedade, podem se adaptar a uma economia onde algoritmos, dados e capacidade computacional respondem por uma parcela crescente da geração de valor.

No Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo, contratar funcionários gera impostos sobre a folha de pagamento. Adquirir uma máquina com IA para substituir esses trabalhadores pode eliminar a tributação da folha e, muitas vezes, permitir a dedução rápida do investimento, reduzindo o imposto sobre o lucro, conforme informação divulgada por Brazil Journal.

A visão de Bill Gates e a distorção tributária

Bill Gates aborda a questão a partir do impacto no emprego. Ele destaca que o sistema tributário atual, em muitos países, favorece o capital em detrimento do trabalho. Isso pode incentivar a automação a níveis que superam a eficiência econômica real, deslocando trabalhadores e diminuindo a participação do trabalho na renda.

A automação, embora eleve a produtividade e reduza custos, também levanta a pergunta: o sistema tributário deve ser neutro na escolha entre capital e trabalho? Ou o tratamento fiscal diferenciado acaba estimulando artificialmente a substituição de pessoas por máquinas?

A discussão não é trivial. Tratar um novo tributo como uma solução simples ignora a complexidade de definir o que seria um “robô” para fins fiscais, ou como um “token” poderia medir a capacidade econômica de maneira justa. Modelos de IA com a mesma utilidade podem consumir recursos computacionais distintos, e o mesmo número de tokens pode auxiliar um médico ou substituir um departamento inteiro.

O desafio de definir o que tributar na IA e automação

A criação de uma base tributária para robôs ou IA esbarra em questões práticas e justas. Uma base que seja fácil de quantificar, como a contagem de tokens, não garante uma tributação equitativa. A dificuldade está em relacionar a quantidade de processamento ou o número de tokens com a renda, a riqueza ou a capacidade contributiva real gerada.

Definir o que é um “robô” para fins de imposto é um dos maiores obstáculos. É uma máquina física? Um software? E como taxar a inteligência artificial, que pode ter diversas formas de aplicação e impacto econômico? Estas são perguntas cruciais que os especialistas tentam responder para evitar distorções no sistema.

É essencial enfrentar essas dificuldades para garantir uma tributação justa. No entanto, também é fundamental reconhecer que a economia digital já é, em parte, alcançada pelos tributos existentes. Um novo imposto precisa corrigir distorções sem se somar excessivamente aos atuais, elevando custos e, potencialmente, aumentando a regressividade se o ônus for repassado ao consumidor.

Dados: a nova mina de ouro e o dilema da taxação

A discussão se aprofunda ao incluir os dados, hoje uma das principais fontes de valor na economia digital, ao lado de softwares e algoritmos. Muitos serviços oferecidos gratuitamente funcionam como uma troca: o usuário acessa uma ferramenta de IA ou conteúdo, e a plataforma coleta, processa e monetiza suas informações.

O desafio é determinar onde capturar esse valor: no lucro da atividade, na renda consumida pelos usuários ou no patrimônio das grandes empresas. Na tributação da renda, identificar e mensurar o valor dos dados é complicado. Uma informação isolada e de domínio público pode ganhar enorme valor quando combinada e processada em escala, e seu custo de obtenção pouco diz sobre sua futura rentabilidade.

A tributação do consumo parece, a princípio, mais simples, pois focaria na transação com o consumidor. No Brasil, o IBS e a CBS foram pensados com uma base ampla, capaz de alcançar operações com bens imateriais e serviços, mesmo que a contraprestação não seja em dinheiro. Contudo, a mensuração reaparece: se o usuário recebe acesso gratuito em troca de dados, qual o valor dessa “contraprestação”? O valor do serviço ou dos dados entregues?

Adequação do sistema: inovar sem penalizar

A tributação do patrimônio enfrenta obstáculos ainda mais elementares para os dados. Seria preciso definir qual é o ativo tributável, quem o controla, sua localização e seu valor em determinado momento. Perguntas já complexas para intangíveis tradicionais tornam-se ainda mais desafiadoras com dados que são reproduzíveis, não exclusivos e, por vezes, de domínio público.

Historicamente, o imposto de renda das empresas surgiu nos Estados Unidos, no início do século XX, como resposta à concentração de riqueza e poder das grandes corporações da época. Hoje, as Big Techs levantam discussões semelhantes, motivando propostas de tributar dados, processamento, tokens, ou revisar a divisão de lucros tributáveis entre países.

A história sugere que o sistema tributário se adapta às novas formas de geração de riqueza. O verdadeiro desafio é realizar essa adaptação sem transformar a tributação em uma penalidade à inovação. Encontrar um equilíbrio que permita a coleta de impostos de forma justa sem inibir o progresso tecnológico é o caminho essencial a ser percorrido.

Perguntas Frequentes

O que Bill Gates propõe sobre a tributação de robôs e IA?

Bill Gates defende a tributação de robôs e, mais recentemente, de tecnologias de inteligência artificial, incluindo o uso de tokens. Ele argumenta que isso ajudaria a compensar a substituição de trabalhadores por máquinas e equilibraria a carga fiscal entre capital e trabalho.

Por que é difícil tributar robôs e inteligência artificial?

É difícil definir o que constitui um “robô” ou “IA” para fins fiscais. Há complexidades em mensurar a capacidade econômica de um sistema de IA, como um token, que pode ter usos e valores muito diferentes, e em garantir que a base tributável seja justa.

Como os dados digitais se encaixam na discussão sobre novos impostos?

Dados são uma fonte crucial de valor na economia digital. O desafio é definir onde capturar esse valor — na renda, no consumo ou no patrimônio —, já que sua mensuração é complexa, e muitos serviços são trocados por dados em vez de dinheiro.

O que se discute sobre a neutralidade fiscal entre capital e trabalho?

Especialistas debatem se o sistema tributário atual favorece o capital em relação ao trabalho, incentivando a automação excessiva. A questão é se os impostos deveriam ser neutros ou atuar para desestimular a substituição artificial de pessoas por máquinas.

O sistema tributário atual já contempla a economia digital?

Sim, a economia digital já é, em parte, alcançada pelos tributos atuais. No entanto, a discussão se concentra em como adaptar o sistema para capturar o valor gerado por novas formas de riqueza, como a IA e os dados, sem inibir a inovação tecnológica.