Elas se juntam a Edina Batista para ampliar a presença feminina no apito central, desafiando décadas de barreiras e preconceito no futebol.

Para este fim de semana, o futebol brasileiro se prepara para um momento histórico: as árbitras Daiane Muniz e Charly Deretti farão sua estreia em partidas da Série A do Campeonato Brasileiro masculino. Essa escalação marca um avanço significativo na luta por maior representatividade feminina em um ambiente tradicionalmente dominado por homens.

A chegada de Muniz e Deretti rompe um período de sete anos em que apenas Edina Batista representou as mulheres no apito central da elite masculina. A inclusão delas sinaliza uma mudança importante, abrindo caminho para uma nova geração de profissionais talentosas e ampliando a diversidade em campo.

Apesar de não haver regras formais que impeçam mulheres de apitar jogos masculinos, a prática histórica construiu barreiras imensas. Agora, elas demonstram que, com os mesmos testes físicos rigorosos da FIFA e a aplicação firme das 17 regras do jogo, estão prontas para atuar no mais alto nível do futebol nacional, conforme informação divulgada por NeoFeed.

Pioneirismo no Apito Central: Daiane Muniz e Charly Deretti

As duas árbitras escreverão um novo capítulo na história do futebol brasileiro. Charly Deretti apita a partida entre São Paulo e Coritiba neste sábado, 15 de agosto, no estádio Morumbi, e terá o auxílio de outras duas assistentes femininas. No dia seguinte, Daiane Muniz comandará o jogo entre Chapecoense e Bahia, em Chapecó.

A trajetória de Daiane Muniz para chegar à Série A masculina levou 11 anos. Ela ingressou no quadro de árbitras da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2015 e, no ano seguinte, já atuava como assistente em jogos da Série B masculina. Recentemente, Daiane ganhou destaque não por sua atuação na Copa do Mundo feminina de 2023 ou nas Olimpíadas de Paris 2024, mas por ser alvo de comentários machistas do jogador Gustavo Marques, do Bragantino, após uma semifinal do Paulistão.

O zagueiro afirmou: "Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho". A declaração provocou uma reação imediata, com a Federação Paulista de Futebol emitindo nota de repúdio e o jogador sendo suspenso. Ele pediu desculpas, percebendo que o cenário do futebol está em transformação.

Já a catarinense Charly Wendy Straub Deretti entrou para o quadro de arbitragem da CBF em 2018 e agora alcança a elite masculina. Em setembro, ela será uma das árbitras na Copa do Mundo feminina sub-20, que será realizada na Polônia, mostrando sua experiência em torneios internacionais.

O Legado de Edina Batista e as Primeiras Conquistas

Por sete anos, Edina Batista foi a única representante feminina no apito central da Série A masculina, tornando-se uma verdadeira estrela solitária na representatividade. Sua presença em um universo historicamente misógino a fez sentir o peso do preconceito, onde "quando um árbitro homem erra, é ladrão, mas quando uma árbitra erra, é porque é mulher".

Antes de Edina, foi Silvia Regina de Oliveira quem quebrou a barreira inicial, atuando como árbitra central na Série A entre 2003 e 2005. Depois dela, o espaço ficou vazio até a chegada de Edina em 2019, após dez anos de dedicação em divisões inferiores e em estádios do futebol feminino, muitas vezes acanhados e vazios.

Apesar dos desafios no futebol masculino, a arbitragem feminina brasileira já possui reconhecimento consolidado em competições de mulheres. Edina Batista, por exemplo, atuou em duas edições da Copa do Mundo feminina e, no ano passado, formou um trio histórico com as assistentes Neuza Back e Fabrini Beviláqua, comandando uma semifinal da Eurocopa feminina na Suíça.

Um Século de Barreiras e a Luta por Reconhecimento

A história das mulheres no futebol brasileiro é marcada por proibições e desafios. O futebol feminino foi vetado por 38 anos, entre 1941 e 1979, por meio do Decreto-Lei nº 3.199, assinado por Getúlio Vargas, que impedia mulheres de praticar "esportes incompatíveis com sua natureza".

Para as árbitras, as barreiras foram igualmente monumentais. No início da década de 1970, Lea Campos precisou de uma autorização direta do presidente Emílio Médici para ter seu direito de apitar reconhecido. Ainda assim, João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), declarou que nenhuma mulher apitaria jogos enquanto ele estivesse no comando do futebol nacional.

Foi somente em 1983 que Cláudia Vasconcellos Guedes se tornou a primeira árbitra brasileira reconhecida oficialmente pela FIFA, e anos depois, em 1991, ela apitou na primeira Copa do Mundo feminina da história. Outra figura marcante foi Ana Paula Oliveira, que em 2005 fez história como a primeira mulher a atuar como assistente na Copa Libertadores masculina. Contudo, após erros técnicos em 2007, foi afastada e posou para a revista Playboy, um episódio emblemático da objetificação que as mulheres enfrentam no esporte.

A Lenta Virada de Chave na Arbitragem Brasileira

Uma monografia da Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (EEFEUSP), intitulada "Arbitragem feminina no futebol brasileiro: história, desafios e representatividade das mulheres que mandam em campo", analisou todos os jogos das séries dos Campeonatos Brasileiros masculino e feminino entre 2019 e 2024. O levantamento revela que a presença de mulheres na arbitragem cresce lentamente.

Os dados apontam uma "inclusão hierarquizada": há mais espaço para mulheres nas bordas do campo, mas pouco espaço no comando das partidas. Quanto maior o prestígio e o impacto econômico da competição, maior a resistência em escalar mulheres para o apito central. Este padrão revela um "teto de vidro" ainda presente.

A verdadeira transformação na presença feminina ocorreu no ecossistema do futebol feminino, impulsionada por políticas institucionais deliberadas da CBF, e não por um avanço espontâneo. A Confederação tem promovido uma expansão quantitativa de mulheres no quadro geral de arbitragem, mas ainda é preciso quebrar o "teto de vidro" do apito central e adotar critérios mais transparentes de escalação para o topo da pirâmide esportiva.

Perguntas Frequentes

Quem são as novas árbitras da Série A masculina de futebol?

As novas árbitras que farão sua estreia na Série A do Campeonato Brasileiro masculino são Daiane Muniz e Charly Deretti, que apitarão jogos neste fim de semana, somando-se a Edina Batista.

Qual foi a primeira mulher a apitar na Série A do Campeonato Brasileiro masculino?

A primeira mulher a atuar como árbitra central em um jogo da Série A do Campeonato Brasileiro masculino foi Silvia Regina de Oliveira, que estreou em 2003 e permaneceu na função até 2005.

O futebol feminino já foi proibido no Brasil por lei?

Sim, o futebol feminino foi proibido no Brasil por 38 anos, entre 1941 e 1979, por meio do Decreto-Lei nº 3.199, que impedia mulheres de praticar esportes considerados incompatíveis com sua "natureza".

Por que a presença feminina na arbitragem masculina é considerada um desafio?

Apesar de não haver regras formais contra, a presença feminina na arbitragem masculina é um desafio devido a barreiras históricas, preconceito e uma "inclusão hierarquizada" que reserva poucos espaços no comando das partidas de maior prestígio, conforme apontado por estudos.

Quais avanços a arbitragem feminina tem feito no futebol de mulheres?

A arbitragem feminina brasileira tem um espaço consolidado no futebol de mulheres, com profissionais como Edina Batista atuando em Copas do Mundo femininas e Euros. A paridade neste segmento é resultado de políticas institucionais específicas.