Província chinesa investe em uva Marselan e tecnologia para se consolidar como polo vitivinícola único, após décadas de mineração.

Em uma operação de proporções impressionantes, a província de Ningxia, no norte da China, realiza anualmente o enterro de milhões de videiras após a colheita. Essa técnica, conhecida como vine burial, protege as plantas do rigoroso inverno local, onde as temperaturas chegam a 20 graus negativos. Com quase 40 mil hectares de vinhedos, uma área equivalente à Nova Zelândia, Ningxia emergiu rapidamente como um produtor de vinhos de destaque internacional.

A região, encravada entre o deserto de Gobi e as montanhas Helan, não demorou a conquistar reconhecimento global. Desde 2011, seus rótulos têm acumulado prêmios nos mais prestigiados concursos mundiais, evidenciando uma transformação radical de sua paisagem e economia. O sommelier Diego Arrebola, tricampeão brasileiro, ressalta que Ningxia foi "a eleita para ser a joia da coroa" da vitivinicultura chinesa, conforme informação divulgada por NeoFeed.

No entanto, o sucesso traz um novo desafio: aposentar o rótulo de "Bordeaux da China" e afirmar uma identidade própria, baseada em seu terroir único. A busca por essa distinção envolve a valorização de características locais e a aposta em uma uva-assinatura, que possa expressar a singularidade dos vinhos produzidos nesta parte do mundo.

Da mineração ao reconhecimento global: a ascensão do vinho chinês

Por décadas, Ningxia teve sua economia pautada pelo pastoreio, agricultura de subsistência e, principalmente, pela mineração de carvão. Essa exploração intensiva deixou marcas profundas, como crateras de até 40 metros, poluição do ar e avanço da desertificação. No final dos anos 1990, o governo chinês apostou na viticultura como uma estratégia para conter o deserto, investindo em irrigação com água do Rio Amarelo e oferecendo incentivos fiscais para o setor.

O investimento em infraestrutura e pesquisa começou a dar frutos notáveis em 2011. Nesse ano, a vinícola Helan Qingxue conquistou o Troféu Internacional do Decanter. No mesmo período, quatro rótulos de Ningxia foram classificados entre os cinco melhores em uma prova às cegas, que contou com degustadores franceses e chineses. A partir daí, a região ganhou a alcunha de "Bordeaux da China", dada a predominância inicial de castas como Cabernet Sauvignon e Merlot.

Recentemente, em junho, Ningxia foi responsável por metade dos 214 prêmios recebidos pela China no Decanter World Wine Awards 2026, um aumento expressivo em relação aos 33 prêmios de 2015. Entre os destaques, o Helanhong Jiangnan Reserva Tinto 2019, um blend de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc da vinícola estatal Helanhong, recebeu a cobiçada medalha Platina, com 97 pontos.

O modelo chinês por trás do sucesso vinícola de Ningxia

O sommelier Diego Arrebola explica que a qualidade dos vinhos de Ningxia reside no seu clima seco, na sanidade das uvas, na amplitude térmica e na maturação equilibrada, e não apenas na técnica do vine burial. Atualmente, 130 vinícolas operam na região, produzindo impressionantes 140 milhões de garrafas por ano, o que representa 50% de toda a produção nacional chinesa de vinho.

Embora o mercado doméstico seja o principal foco, uma parte significativa dessa produção já alcança cerca de 40 países. Exportações estratégicas para França, Reino Unido, Hong Kong e Macau são cruciais para a projeção internacional dos vinhos de Ningxia. Esse crescimento é viabilizado por um modelo governamental único: o Estado, proprietário de toda a terra, prepara a infraestrutura e então arrenda os lotes a preços atrativos para a iniciativa privada.

Produtores de prestígio e gigantes globais impulsionam Ningxia

Diversos produtores privados se beneficiaram desse modelo. A Xige Estate, fundada em 2017 pelo enólogo Zhang Yanzhi, ganhou destaque global quando seu tinto Jade Dove Single Vineyard (entre US$ 45 e US$ 60) foi servido no jantar de recepção do presidente Emmanuel Macron em abril de 2023. O líder francês apreciou tanto a bebida, com suas notas herbáceas, couro e geleia de morango, que solicitou garrafas para levar.

Outros nomes importantes incluem a pioneira Silver Heights, de Emma Gao, que alcançou status de cult com o rótulo The Summit (US$ 80). A Kanaan Winery, da enóloga Wang Fang, também se consolidou com seu premiado Pretty Pony (cerca de US$ 50), um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot com aromas de groselha preta fresca, café e chocolate amargo. Esses projetos reforçam a reputação dos vinhos autorais da província.

Gigantes internacionais também enxergaram o potencial de Ningxia. A francesa Pernod Ricard assumiu a Helan Mountain, produzindo o tinto Helan Mountain Grand Reserve (entre US$ 60 e US$ 80). A LVMH fundou a Chandon Ningxia, focada no Chandon China Brut (entre US$ 25 e US$ 35). Em 2025, a australiana Treasury Wine Estates investiu cerca de US$ 18 milhões na Ningxia Stone & Moon para produzir o Penfolds CWT 521 (US$ 120), uma estratégia para mitigar riscos geopolíticos após as tarifas chinesas sobre vinhos australianos.

Marselan: a aposta de Ningxia para uma identidade única

Com a maturidade da vitivinicultura local, o grande desafio é construir uma identidade de origem autêntica, desvinculada de comparações. A aposta de Ningxia para sua uva de assinatura é a Marselan. Criada na França em 1961 pelo cruzamento de Cabernet Sauvignon e Grenache, essa variedade nunca foi protagonista nas regiões vinícolas tradicionais, mas encontrou em Ningxia um terreno fértil para se desenvolver.

Na província chinesa, a Marselan se adaptou excepcionalmente bem, gerando vinhos concentrados, com cor rubi-púrpura intensa, taninos muito doces e aromas florais de violetas. A China é atualmente o segundo maior produtor mundial de Marselan, com cerca de 4 mil hectares cultivados. Embora represente apenas 5% dos vinhedos de Ningxia, os rótulos elaborados com essa uva têm conquistado os principais prêmios internacionais desde 2017 e figuram na lista dos 100 melhores vinhos da China, segundo o crítico James Suckling.

O sommelier Diego Arrebola conclui que Ningxia já demonstrou sua capacidade de produzir grandes vinhos. O próximo passo é garantir que o consumidor escolha um vinho da região "não porque ele lembra outro terroir, mas porque ele expressa algo único". Apesar do prestígio, a presença de vinhos chineses no exterior ainda é estratégica e focada no segmento ultrapremium, tornando-os um luxo para poucos.

Perguntas Frequentes

O que é a técnica vine burial em Ningxia?

Vine burial é uma técnica agrícola usada em Ningxia, China, para proteger as videiras do frio intenso do inverno (até 20 graus negativos). Após a colheita, as plantas são podadas, soltas das treliças e dobradas rente ao solo, sendo então cobertas com terra para isolamento até a primavera.

Quais vinícolas se destacam na região de Ningxia?

Entre as vinícolas de destaque em Ningxia estão a Helanhong (com seu premiado Jiangnan Reserva Tinto), a Helan Qingxue (vencedora do Troféu Internacional do Decanter), a Xige Estate (cujo Jade Dove Single Vineyard foi servido a Macron), a pioneira Silver Heights e a Kanaan Winery. Grandes nomes internacionais como Pernod Ricard, LVMH (Chandon Ningxia) e Treasury Wine Estates também possuem operações na região.

Por que a uva Marselan é a aposta de Ningxia para sua identidade?

A uva Marselan, um cruzamento de Cabernet Sauvignon e Grenache, adaptou-se excepcionalmente bem ao terroir de Ningxia, produzindo vinhos concentrados, com taninos doces e aromas florais. Embora criada na França, ela nunca foi protagonista lá e agora é a aposta da província chinesa para desenvolver uma identidade vinícola autêntica e única no mercado global, destacando-se em competições internacionais e entre críticos como James Suckling.