Custo de ataques com IA caiu mais de 100 vezes desde 2023, permitindo crimes como deepfakes em larga escala, com 50% dos casos na América Latina.
A inteligência artificial (IA), embora prometa revolucionar diversos setores, também se tornou uma ferramenta poderosa nas mãos de cibercriminosos, impulsionando um aumento expressivo na sofisticação e na frequência dos golpes. Essa nova realidade tem sido alarmante para especialistas, que observam uma drástica redução nos custos para orquestrar ataques de alta complexidade.
O roubo de identidade, em particular, se tornou mais escalado e sofisticado, conforme alerta Evandro Ernani, head de engenharia do IDCloud da startup brasileira de identidade digital Unico. A facilidade de acesso à tecnologia de IA permite que fraudadores combinem roubo de dados e deepfakes para simular a identidade de uma pessoa em diferentes contextos.
Essa democratização do cibercrime, potencializada pela IA, gera um cenário de vulnerabilidade sem precedentes para indivíduos e empresas no Brasil. As descobertas recentes sobre o tema foram apresentadas durante painel realizado no evento SP2B, em 13 de agosto, conforme informação divulgada por NeoFeed.
O Custo Alarmante da Sofisticação Criminosa com IA
Um levantamento da Unico revela a dimensão dessa democratização: o custo para montar um ataque sofisticado despencou mais de 100 vezes desde 2023. O que antes exigia um investimento de cerca de R$ 5 mil em hardware, hoje pode ser feito por menos de R$ 30 por mês. Essa queda brusca torna o cibercrime de alta complexidade acessível a um número muito maior de fraudadores.
Atualmente, 23% dos ataques globais já são considerados de alta sofisticação, empregando táticas avançadas como os deepfakes. Na América Latina, esse índice é ainda mais preocupante, atingindo 50% dos ataques. No Brasil, a capital paulista, São Paulo, concentra 22% desses incidentes, evidenciando uma alta concentração regional.
Deepfakes e Roubo de Identidade: Como a IA Impulsiona Fraudes
A capacidade de gerar conteúdo falso convincente, como vídeos e áudios, utilizando deepfakes, tem sido explorada para fins maliciosos. Evandro Ernani destaca que os criminosos estão usando essa tecnologia para participar e progredir em processos seletivos de empresas, passando-se por outras pessoas. "Não é que isso pode acontecer. Já está acontecendo", alerta Ernani.
A grande quantidade de informações pessoais e imagens disponíveis digitalmente facilita a criação desses perfis falsos. Um único perfil fraudulento, por exemplo, foi associado a 949 identidades diferentes e atacou 30 empresas distintas no Brasil, conforme dados da Unico. Ernani adverte sobre os riscos de empresas delegarem 100% do trabalho para a IA, onde ele prevê "grandes falhas".
A Vulnerabilidade Humana e o Resgate de Dados na Era Digital
Roberto Rebouças, gerente-geral da Kaspersky no Brasil, reforça que, apesar das técnicas sofisticadas, o ponto fraco fundamental permanece sendo as pessoas. "No Brasil, todo mundo usa muito as redes sociais e publica coisas que não deveria", afirma Rebouças. Essa exposição de dados pessoais é frequentemente levada para o ambiente corporativo.
Uma vez que os atacantes conseguem as credenciais de um indivíduo, como usuário e senha, eles conseguem invadir as empresas. Rebouças também pontua a mudança na dinâmica dos ataques após a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Antes, as empresas desligavam sistemas e restauravam backups. "Hoje, o criminoso coleta os dados, criptografa e vem com uma segunda demanda: me pague o resgate ou você vai ter que se explicar para o governo", explica ele.
Empresas sob Ataque Constante: Sobreviver é a Nova Pergunta
Os incidentes de segurança digital agora envolvem não apenas multas pesadas, mas também danos severos à reputação e perda de participação de mercado em caso de vazamento de dados. Rebouças enfatiza que as empresas não podem mais operar com a mentalidade antiga de segurança: "Não é se ela vai ser invadida, mas quando".
A pergunta crucial atualmente é se as empresas conseguirão sobreviver a esses ataques. No contexto das pequenas e médias empresas, muitas delas "podem não sair do outro lado", conclui Rebouças, ressaltando a urgência de uma postura proativa e evoluída em segurança cibernética frente à ameaça crescente da IA.
Perguntas Frequentes
O que são deepfakes e como a IA os utiliza em golpes?
Deepfakes são mídias sintéticas, como vídeos e áudios, geradas por inteligência artificial que simulam a aparência ou a voz de uma pessoa de forma convincente. Criminosos usam a IA para criar deepfakes a partir de dados e imagens disponíveis, facilitando roubos de identidade e fraudes sofisticadas em processos seletivos ou acessos indevidos.
Como a IA tem impactado o custo dos ciberataques?
A IA tem barateado drasticamente o custo dos ciberataques. Segundo a Unico, o investimento necessário para um ataque sofisticado caiu de R$ 5 mil para menos de R$ 30 por mês desde 2023, tornando essa modalidade de crime mais acessível e disseminada.
Quais são os principais riscos para as empresas com o avanço do cibercrime por IA?
As empresas enfrentam riscos como roubo de credenciais, invasões corporativas por deepfakes, vazamento de dados, sequestro de informações (ransomware) e danos à reputação. Além de perdas financeiras e multas da LGPD, há o risco de perda de participação de mercado e, para pequenas e médias empresas, a própria sobrevivência do negócio.
Qual o papel da LGPD na resposta das empresas a incidentes de segurança?
A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) mudou a forma como as empresas devem responder a incidentes. Criminosos agora, além de criptografar dados, exigem resgate sob a ameaça de denunciar o vazamento ao governo, expondo a empresa a sanções e multas regulatórias, o que aumenta a pressão por conformidade e resposta adequada.
São Paulo é mais vulnerável a ataques cibernéticos sofisticados com IA?
Dados da Unico indicam que São Paulo concentra 22% dos incidentes de ataques cibernéticos de alta sofisticação no Brasil. Embora não se possa dizer que é "mais vulnerável" no sentido de fragilidade, a alta concentração de ataques sugere que a região é um alvo frequente para cibercriminosos que utilizam a IA para fins ilícitos.
