Estratégia inovadora une produtores e conservacionistas na maior planície alagada do mundo, impulsionando a economia local e a proteção do bioma.
O Pantanal, maior planície alagada do mundo e um dos maiores refúgios de biodiversidade, guarda uma característica crucial para sua preservação: cerca de 95% do seu território está em propriedades particulares. Isso significa que a proteção desse bioma essencial depende, em grande parte, de aproximadamente três a quatro mil proprietários rurais que, por mais de dois séculos, têm na pecuária extensiva sua principal fonte de subsistência.
Para que esses produtores se engajem ativamente na defesa ambiental, a conservação precisa transcender o mero compromisso ecológico e se converter em um ativo econômico tangível. A conciliação entre a criação de gado e a vida selvagem, especialmente com as onças-pintadas, é um desafio histórico que, agora, encontra uma solução promissora.
Nesse cenário, o turismo de conservação emerge como uma alternativa vital, capaz de unir interesses e garantir a sustentabilidade do bioma. Ao transformar a presença de espécies selvagens em uma oportunidade de negócio, o modelo sela a paz no campo e impulsiona a economia local, conforme informação divulgada por NeoFeed.
Pantanal Ganha Destaque Internacional e Impulsiona o Ecoturismo
A visibilidade do Pantanal vem crescendo exponencialmente, tanto no Brasil quanto no exterior, criando um ambiente favorável para o ecoturismo. Recentemente, a região foi tema de uma exposição de fotografia no Science Museum, em Londres, recebendo ampla repercussão em veículos como os jornais The Sun e The Mirror.
Além disso, o bioma já foi eleito pela revista americana Time como um dos 50 melhores lugares do mundo para visitar e apontado pelo USA Today como o quarto melhor destino para observação de vida selvagem. Esse reconhecimento se reflete diretamente no interesse turístico.
Dados da plataforma Booking.com, coletados em julho, revelaram um aumento de 214% nas buscas por hospedagens em destinos pantaneiros como Aquidauana, Cáceres e Poconé em apenas um ano. Esse movimento é impulsionado por uma rede de esforços que inclui organizações como SOS Pantanal, Documenta Pantanal, as ONGs Onçafari e Instituto Arara-Azul, e a fazenda Caiman Pantanal.
Inovação da Caiman Pantanal: Convivência entre Gado e Onças
A Caiman Pantanal, fundada em 1985 pelo empresário Roberto Klabin em Miranda (Mato Grosso do Sul), exemplifica a convivência harmoniosa entre pecuária comercial, conservação ambiental e empreendimento turístico. Em seu território de 52,4 mil hectares, um projeto específico busca resolver um dos maiores conflitos: a predação de rebanhos por onças-pintadas.
Desde 2019, a Caiman assumiu o manejo dos rebanhos de seus dois arrendatários, cobrando um valor anual por cabeça. Esse valor já inclui a previsão de perda de até 3% do rebanho, que é a média do Pantanal por diferentes causas. Se um abate for causado por onça e ultrapassar esse limite, a fazenda reembolsa o pecuarista.
Essa iniciativa transforma o prejuízo potencial causado pelo felino em um risco compartilhado, o que ajuda a acalmar os ânimos no campo e desincentiva a caça retaliatória. Parte desses reembolsos extras é financiada, desde 2022, pela operação hoteleira da própria Caiman, criando um círculo virtuoso onde o turismo sustenta a proteção da natureza.
Onçafari e a Importância da Onça-Pintada para o Turismo
O principal parceiro da Caiman nessa empreitada é o Onçafari, ONG fundada por Mario Haberfeld em 2011. A colaboração fortalece um dos maiores atrativos do turismo no Pantanal: a observação de onças-pintadas em seu habitat natural. A região é, de fato, um dos melhores destinos globais para avistar o maior felino das Américas.
Foi no Pantanal, em 2015, que ocorreu a primeira reintrodução bem-sucedida de onças-pintadas na natureza, um feito da Onçafari com dois animais órfãos resgatados do cativeiro. Esse acontecimento, inédito na conservação internacional, tornou-se objeto de estudo na Universidade de Cambridge seis anos depois.
Mario Haberfeld, fundador da ONG, ressalta a importância de uma abordagem integrada: “A onça-pintada não conhece fronteiras: atravessa rios, florestas e diferentes territórios. Então a solução para a conservação da espécie também precisa ser sem fronteiras”. Para isso, boa parte dos animais que circulam pela Caiman é monitorada por colares com tecnologia de rastreamento, contribuindo para pesquisas, conservação e aumentando as chances de avistamento em safáris. Desde sua criação, a organização já identificou mais de 300 onças-pintadas no Pantanal, com 20 novos indivíduos e 9 nascimentos registrados apenas no ano passado, indicando uma população em expansão.
Desafios do Fogo e Futuro do Ecoturismo de Alto Padrão
Apesar dos sucessos, o Pantanal permanece vulnerável, especialmente aos incêndios. A superfície de água do bioma encolheu 61% em relação à média histórica, tornando a região mais suscetível a grandes queimadas. Dados do MapBiomas revelam que, entre 1985 e 2024, 62% de todo o território pantaneiro queimou pelo menos uma vez, e 72% das áreas queimadas incendiou duas ou mais vezes.
Gustavo Figueiroa, do SOS Pantanal, alerta que “Quanto menos superfície de água disponível, mais extensamente o fogo se alastra”. Em resposta, a Caiman ampliou sua atuação na restauração da vegetação e no manejo do fogo. Após ter cerca de 82% de sua área atingida, a fazenda investiu na recuperação, criando refúgios para a fauna, dispersando sementes e plantando espécies nativas. Atualmente, mantém brigadas de incêndio, monitoramento por satélite e uma rede de poços para o combate às chamas, além de ser a primeira propriedade privada a adotar a queima prescrita.
O êxito do modelo de conservação e turismo levou a Caiman a investir ainda mais no segmento de alto padrão. Para 2026, a novidade é a Villa Cordilheira, que oferecerá sete bangalôs independentes e áreas de lazer 100% privadas. A acomodação funcionará no sistema de locação exclusiva para um único grupo de até 16 pessoas, com diárias a partir de R$ 70 mil, incluindo equipe dedicada e safáris personalizados.
Perguntas Frequentes
O que é turismo de conservação no Pantanal?
O turismo de conservação no Pantanal é um modelo que transforma a proteção da natureza, especialmente das onças-pintadas, em um ativo econômico. Ele incentiva pecuaristas a coexistirem com a fauna, gerando renda para a região e financiando a preservação do bioma.
Como o Pantanal se tornou um destino turístico de destaque?
O Pantanal ganhou visibilidade internacional por meio de exposições, reconhecimento de revistas como Time e USA Today, e um aumento significativo nas buscas por hospedagens. Organizações e projetos como Caiman Pantanal e Onçafari contribuem para essa promoção.
Qual o papel da Caiman Pantanal na proteção das onças?
A Caiman Pantanal implementou um modelo inovador onde assume o risco de predação de gado por onças-pintadas, reembolsando pecuaristas por perdas acima de uma média estabelecida. Parte desse custeio é financiada pela operação hoteleira, criando um ciclo de proteção e lucro.
O que é o projeto Onçafari e quais seus principais resultados?
Onçafari é uma ONG focada na conservação das onças-pintadas, parceira da Caiman Pantanal. É responsável pela primeira reintrodução bem-sucedida de onças na natureza no Pantanal em 2015 e já identificou mais de 300 indivíduos na região, indicando crescimento populacional.
Por que o Pantanal ainda é vulnerável, apesar dos esforços de conservação?
Apesar dos avanços, o Pantanal enfrenta vulnerabilidades como a redução de 61% da superfície de água em relação à média histórica, tornando-o mais suscetível a incêndios. Grandes áreas já queimaram múltiplas vezes, conforme dados do MapBiomas, exigindo contínuos esforços de manejo e restauração.
