Déficit dispara em julho e eleva rendimentos dos títulos do Tesouro, gerando comparações com a histórica instabilidade brasileira.

Um cenário que por décadas foi rotina em economias emergentes como a do Brasil, com desequilíbrio fiscal e dívida pública em ascensão, agora monopoliza os debates econômicos nos Estados Unidos. A maior economia do mundo enfrenta, de forma surpreendente, questões fiscais que levam analistas a traçar paralelos com a experiência brasileira.

Três anúncios recentes em poucos dias acenderam o sinal de alerta para as contas públicas americanas. Economistas e agentes do mercado financeiro observam com preocupação a escalada da dívida e do déficit, com impactos que já reverberam na curva de juros e na percepção de segurança dos ativos do Tesouro.

A situação fiscal do país, que por muito tempo foi tratada como um problema crônico, mas não urgente, transformou-se em uma ameaça real à estabilidade. Acompanhe os detalhes dessa reviravolta e as lições que o Brasil pode oferecer, conforme informação divulgada por NeoFeed.

O Alarme do Déficit: EUA Superam a Marca dos US$ 40 Trilhões

Na semana passada, o Tesouro americano divulgou um dado alarmante: o quarto maior déficit mensal da história, atingindo US$ 432 bilhões em julho. Esse resultado foi impulsionado por reembolsos de tarifas alfandegárias que geraram receita negativa pelo terceiro mês consecutivo.

Com isso, o déficit acumulado nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026 já superou o total do ano anterior, aproximando-se de 6% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse número está três pontos percentuais acima do que o governo planejava para o longo prazo, mostrando uma deterioração acelerada.

A quarta-feira, 19 de agosto, trouxe outra má notícia: a dívida pública dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez na história, dobrando em menos de uma década. A dívida levou até 1981 para atingir US$ 1 trilhão e quadruplicou em menos de 20 anos para o patamar atual.

A reação do mercado foi imediata e negativa, com a venda de títulos do Tesouro. Os rendimentos dos Treasuries de 30 anos atingiram 5,3%, o maior nível em quase duas décadas. Em uma tentativa de conter a sangria, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a duplicação das recompras de títulos com vencimento entre 10 e 30 anos, para pelo menos US$ 4 bilhões por operação. Essa medida, contudo, teve um efeito transitório, reduzindo levemente os rendimentos, mas enfraquecendo o dólar e impulsionando o bitcoin e o ouro.

Analistas, como os do ING Bank, compararam a estratégia de Bessent a “reorganizar as cadeiras no convés do Titanic”, indicando que o foco não estava no problema central: reduzir o déficit e controlar a dívida. Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, reforça: “É impressionante como o declínio fiscal de uma potência global pode se tornar previsível.”

O Preço da Insustentabilidade: Conflito Fiscal e Monetário nos EUA

O debate atual nos EUA ressoa com a longa experiência brasileira sobre desequilíbrio fiscal. O conflito entre uma política fiscal expansionista, marcada por gastos governamentais desenfreados, e uma política monetária contracionista, que tenta conter a inflação com juros altos, mostra-se insustentável. Essa é a lição do Brasil, segundo José Márcio Camargo, sócio e economista-chefe do Banco Genial.

A insistência do presidente Donald Trump em pressionar o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, a baixar os juros mesmo com a inflação longe da meta, ecoa o embate entre o governo de Luís Inácio da Silva e o Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto. “A lição central é que políticas econômicas equivocadas, em qualquer país, geram resultados negativos”, afirma Camargo.

Por muito tempo, a dívida dos EUA foi vista como um problema crônico, mas não urgente, sem abalar o status do dólar como moeda de reserva ou a segurança dos títulos do Tesouro. Esse consenso, no entanto, começou a mudar. Pela primeira vez em anos, economistas e investidores enxergam a dívida americana como uma ameaça real à estabilidade fiscal e ao custo de financiamento do governo.

Kit Juckes, chefe global de estratégia cambial do Société Générale, alerta: “Com o nível da dívida pública dos EUA atingindo 100% do PIB e os déficits orçamentários permanecendo elevados, a disposição dos investidores estrangeiros em comprar ativos americanos tende a diminuir”. Os títulos do Tesouro, historicamente o ativo mais seguro, parecem menos atrativos e confiáveis, principalmente após o volume recorde de dívida adicional emitida desde o início da pandemia.

Endividamento em Perspectiva: EUA e o Comparativo com o Brasil

A preocupação com a dívida americana vai além dos números brutos, focando na relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB). A relação dívida/PIB dos EUA já está em 120%, próxima dos níveis da Segunda Guerra Mundial, com projeções de crescimento para 130% em 10 anos e 175% em 30 anos.

A título de comparação, a relação dívida/PIB do Brasil está em 89,1%. Embora inferior à americana, o que preocupa é seu crescimento recente: um aumento de 10,2 pontos percentuais desde o fim de 2022, quando estava em 71,7% do PIB. Isso mostra que ambos os países enfrentam desafios fiscais, com a diferença de que o Brasil já está acostumado a lidar com essa instabilidade.

O ambiente global também pressiona os EUA. A economia mundial está menos estável, com tensões geopolíticas, desaceleração da China e fragmentação comercial. Essa conjuntura reduz a margem de tolerância dos investidores para desequilíbrios fiscais prolongados. Internamente, o envelhecimento da população americana eleva os gastos obrigatórios, e a polarização política dificulta acordos para conter despesas ou aumentar receitas.

O resultado é um déficit estrutural que não depende mais apenas de ciclos econômicos, mas de escolhas políticas. Um exemplo é a insistência de Trump em elevar o orçamento de Defesa em 50%, para cerca de US$ 1,5 trilhão. As projeções de déficit também são preocupantes: o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) prevê US$ 2,1 trilhões para este ano, superando a projeção anterior de Trump de US$ 1,8 trilhão para o ano fiscal de 2024. A guerra com o Irã, que elevou os preços da energia, também contribui para a inflação e pressiona o orçamento.

O Fim de uma Era: Títulos do Tesouro Menos Seguros

O alerta em torno da dívida dos EUA não nasce de um risco imediato de calote, algo improvável para um país com um PIB de US$ 32,4 trilhões – um quarto do total global – e que emite a moeda de reserva mundial. A preocupação reside na percepção de que a trajetória fiscal dos EUA deixou de ser apenas elevada e passou a ser preocupante.

A alta nos rendimentos dos títulos neste ano possui múltiplos fatores, desde a inflação persistente até o elevado endividamento corporativo impulsionado pela inteligência artificial. Contudo, paira uma possibilidade mais grave: os títulos do Tesouro, por muito tempo o porto seguro do mercado global, estão perdendo essa característica. Seus rendimentos não são mais tão atraentes em comparação com outros ativos, e em momentos de crise, eles não se comportam com a segurança esperada.

A principal razão para essa mudança é o fato de que, desde o início da pandemia, os EUA inundaram o mercado com uma quantidade avassaladora de dívida adicional, alcançando a marca de US$ 40 trilhões. Não há sinais de que essa onda vá diminuir, o que mantém o cenário fiscal americano sob um escrutínio inédito e com implicações globais.

Perguntas Frequentes

Por que a dívida dos EUA está em alta?

A dívida dos EUA está em alta devido a déficits fiscais crescentes, gastos governamentais desenfreados e a emissão massiva de dívida desde a pandemia. Em julho, o país registrou seu quarto maior déficit mensal da história, totalizando US$ 432 bilhões, impulsionado por reembolsos de tarifas.

Qual o impacto da dívida americana no mercado global?

A dívida americana elevada impacta o mercado global ao elevar os rendimentos dos títulos do Tesouro, o que encarece hipotecas e empréstimos comerciais, e pressiona o orçamento federal. Além disso, diminui a disposição de investidores estrangeiros em comprar ativos americanos, questionando a segurança dos títulos do Tesouro como porto seguro.

A situação fiscal dos EUA é comparável à do Brasil?

Economistas comparam a situação fiscal dos EUA à do Brasil devido ao conflito entre políticas fiscais expansionistas e monetárias contracionistas, além do crescimento recorde da dívida pública. O Brasil tem uma relação dívida/PIB de 89,1%, enquanto a dos EUA é de 120%, com projeções de crescimento ainda maior.

O que é a relação Dívida/PIB e qual o nível nos EUA?

A relação Dívida/PIB mede a capacidade de endividamento de uma economia, comparando a dívida pública com o Produto Interno Bruto do país. Nos EUA, essa relação já atingiu 120%, aproximando-se dos níveis da Segunda Guerra Mundial, e projeta-se que chegue a 175% em 30 anos, gerando grande preocupação.

Quem são os principais economistas que alertam sobre o déficit dos EUA?

Entre os principais economistas que alertam sobre o déficit dos EUA estão José Márcio Camargo do Banco Genial, que compara o cenário ao Brasil, e Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável. Analistas do ING Bank e Kit Juckes do Société Générale também expressam preocupação com a trajetória fiscal americana.