Com endividamento de R$ 1,95 bilhão, a empresa busca proteção judicial enquanto tenta uma nova reestruturação de seus passivos com o mercado.

A fabricante de pás de energia eólica Aeris, uma das maiores do setor no Brasil, ingressou com uma medida cautelar na Justiça, solicitando proteção contra execuções de dívidas. A ação legal ocorre em paralelo ao início de discussões com seus credores, visando uma nova e complexa reestruturação de seus passivos financeiros.

A empresa, que é controlada pela família Negrão, conhecida também por ser proprietária do Laboratório Medley, registrava um endividamento total de R$ 1,95 bilhão ao final do segundo trimestre. A maior parte dessa dívida está atrelada a debêntures, títulos de dívida emitidos por empresas.

A medida cautelar, que tem como objetivo conceder um prazo de 60 dias de proteção para a companhia, tramita em segredo de Justiça, sem detalhes sobre os motivos específicos da nova tentativa de reestruturação terem sido comentados publicamente pela Aeris, conforme informação divulgada por Brazil Journal.

O Cenário de Crise na Indústria Eólica Brasileira

A situação atual da Aeris não é um evento isolado, mas reflete uma crise profunda e prolongada que atinge a indústria de energia eólica no Brasil. O setor enfrenta uma quase paralisação total dos investimentos, impactado por uma conjuntura de excesso de geração renovável.

Este cenário tem resultado em cortes forçados na produção das usinas eólicas, o que consequentemente afeta a receita das empresas e leva à suspensão de novos projetos. A demanda por equipamentos, como as pás fabricadas pela Aeris, secou significativamente.

Grandes players já sentiram o impacto: no ano passado, a GE Vernova fechou uma fábrica de pás eólicas em Pernambuco. Antes disso, Siemens Gamesa e a própria GE já haviam encerrado suas operações de produção de turbinas eólicas no país. A WEG, outra importante empresa do setor, não registrou nenhum novo pedido para sua unidade de aerogeradores há vários trimestres.

Desempenho Financeiro e Operacional da Aeris

Os números financeiros da Aeris ilustram a severidade da crise. No segundo trimestre deste ano, a companhia registrou uma receita de R$ 129 milhões, o que representa uma queda expressiva de 47% em comparação com o mesmo período de 2025. O balanço do trimestre também apontou um prejuízo de R$ 152 milhões.

A operação da fábrica da Aeris, localizada em Pecém, Ceará, foi reduzida drasticamente. A empresa vinha trabalhando com apenas duas linhas ativas, uma redução em relação às quatro linhas operacionais que tinha no segundo trimestre de 2025. A produção de pás foi de 78 MW equivalentes no período, menos da metade do volume anterior.

A paralisação do mercado eólico local é evidenciada pelo fato de a Aeris não ter produzido praticamente nada para entrega no Brasil nos últimos três trimestres, totalizando apenas 1 MW. A quase totalidade das vendas e fabricação tem sido direcionada para o exterior. Apesar dos desafios, a companhia afirmava ter 2 GW em carteira para 2026 e 2027, destacando a força do mercado americano e a previsão de reativar linhas nos próximos trimestres.

Dívidas e Renegociações Anteriores da Aeris

A Aeris já havia realizado movimentações para gerenciar suas dívidas. Em 2023, a empresa captou R$ 400 milhões em um follow-on (oferta subsequente de ações) para amortizar passivos. Em meados de 2025, promoveu uma renegociação de prazos com detentores de debêntures e dívidas bancárias.

Atualmente, a empresa possui um saldo devedor de R$ 1,51 bilhão em duas emissões de debêntures que estão sem pagamentos efetivos desde julho de 2024, de acordo com dados da plataforma Vitrify. Assembleias de credores realizadas em 2025 já haviam postergado o vencimento dessas duas emissões para 2030 e o pagamento de juros para 2027.

Além das debêntures, a Aeris também havia refinanciado dívidas com instituições financeiras de peso no ano passado, incluindo o Banco do Brasil, Banco Votorantim e Banco Santander, mostrando um histórico de gestão de seu endividamento.

Busca por Solução Consensual com Credores

Em comunicado, a Aeris informou que está em busca de "uma solução consensual para a reestruturação do atual endividamento financeiro". A empresa assegurou que "as medidas adotadas não impactarão seus clientes