Ex-presidente ordenou ao Pentágono que avalie a substituição de sistemas avançados no USS Doris Miller, em uma reversão de tecnologia.
Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, emitiu uma diretriz formal ao Pentágono solicitando um plano para substituir as modernas catapultas eletromagnéticas (EMALS) por equipamentos a vapor nos futuros porta-aviões do país. A ordem, emitida em 13 de agosto, afeta diretamente o USS Doris Miller (CVN-81), um porta-aviões da classe Gerald R. Ford que já está em fase de construção.
A medida prevê um prazo de 60 dias para que o Pentágono determine a viabilidade e as implicações de converter um navio projetado para sistemas elétricos à tecnologia de vapor, utilizada em modelos mais antigos. Além das catapultas, Trump também pediu um estudo sobre a troca dos elevadores avançados de armas por sistemas hidráulicos, conforme informação divulgada por Airway.
Esta iniciativa marca uma tentativa de reverter uma das principais inovações tecnológicas da classe Gerald R. Ford e reacende um debate que Trump tem mantido publicamente desde 2017. A controvérsia sobre a eficiência e complexidade dos novos sistemas coloca em xeque anos de desenvolvimento e investimento da Marinha dos EUA.
A polêmica de Trump com as catapultas eletromagnéticas
A oposição de Donald Trump às catapultas eletromagnéticas não é um fato novo. Desde o seu primeiro mandato, em 2017, o então presidente tem expressado publicamente suas ressalvas, especialmente quando o USS Gerald R. Ford enfrentava problemas técnicos que atrasaram sua entrada em serviço operacional. Suas críticas se baseiam na percepção de que o EMALS é um sistema excessivamente complicado e caro.
Trump argumenta que as catapultas a vapor são mais simples, fáceis de reparar em alto-mar e menos dependentes de eletrônica especializada. Ele frequentemente cita conversas com militares da Marinha que, segundo ele, prefeririam a tecnologia mais antiga por permitir soluções de problemas a bordo com menos complexidade técnica. Em 2017, ele chegou a declarar que a Marinha deveria voltar ao “maldito vapor”, e variações dessa história se repetiram anualmente.
Naquela época, as críticas tinham um pano de fundo técnico válido, pois o EMALS apresentou problemas significativos de confiabilidade durante o desenvolvimento. No entanto, a tecnologia criticada em 2017 já está operacional. O USS Gerald R. Ford realizou dezenas de milhares de lançamentos eletromagnéticos, inclusive em longos desdobramentos, e o sistema continuou a ser instalado nos navios subsequentes da classe.
Vapor vs. Eletromagnetismo: Por que a Marinha optou pelo EMALS?
Porta-aviões necessitam de catapultas porque aeronaves convencionais não conseguem atingir a velocidade de voo no curto espaço do convés apenas com a potência de seus motores. Os navios da classe Nimitz, por exemplo, utilizam vapor gerado por seus reatores nucleares para impulsionar um pistão que acelera o jato.
O EMALS, por sua vez, substitui esse arranjo por motores lineares eletromagnéticos. A energia elétrica gera a força que acelera a aeronave. Uma das grandes vantagens dessa tecnologia é o controle de aceleração muito mais preciso. O sistema pode ajustar a quantidade e a entrega de energia de acordo com o peso e as características de cada aeronave, diferente da pressão fixa do vapor.
Essa adaptabilidade reduz as cargas sobre a aeronave no lançamento e amplia a faixa operacional do porta-aviões. Um F/A-18E/F Super Hornet ou um F-35C pesado exige uma energia de lançamento muito maior do que uma aeronave não tripulada menor. Essa capacidade se tornou crucial à medida que a Marinha dos EUA planeja introduzir o reabastecedor Boeing MQ-25 Stingray e outras aeronaves não tripuladas embarcadas, para acomodar alas aéreas com pesos e requisitos de lançamento bastante distintos.
Desafios e custos da mudança no porta-aviões USS Doris Miller
A proposta de Trump enfrenta desafios de engenharia significativos, pois os sistemas de vapor e EMALS não são intercambiáveis no convés de voo. A classe Ford foi projetada com uma capacidade de geração elétrica substancialmente maior, proveniente de seus dois reatores nucleares A1B, especificamente para alimentar o EMALS e outros sistemas elétricos avançados.
Uma catapulta a vapor exige uma infraestrutura completamente diferente, com grandes tubulações para conduzir o vapor da planta de propulsão, além de equipamentos adicionais para gerenciar água e condensação. O USS Doris Miller nunca foi concebido para acomodar essa complexidade. A General Atomics, fabricante do EMALS, alertou que uma mudança no projeto neste estágio criaria riscos substanciais em termos de custo, cronograma e integração. O trabalho no equipamento de lançamento do CVN-81 já estaria quase 50% concluído.
Há também uma questão industrial relevante. O último porta-aviões dos EUA construído com catapultas a vapor foi o USS George H.W. Bush, comissionado em 2009. Desde então, a Marinha não manteve uma linha de produção para catapultas a vapor. Se a ordem for adiante, o Doris Miller pode acabar sendo significativamente diferente dos três primeiros navios da classe Ford, que operam com catapultas eletromagnéticas.
O cenário global: Enquanto EUA questionam, China adota EMALS
A diretriz de Donald Trump surge em um momento peculiar no desenvolvimento da aviação embarcada, pois os Estados Unidos não são mais os únicos a operar catapultas eletromagnéticas. A China, por exemplo, adotou a mesma tecnologia básica para o seu mais novo porta-aviões, o Fujian, que é o primeiro do país projetado para lançamentos convencionais por catapulta.
Os porta-aviões chineses anteriores, Liaoning e Shandong, utilizam rampas para a decolagem. O Fujian, equipado com três catapultas eletromagnéticas, já realizou testes com o caça J-15T, o novo caça furtivo J-35 e a aeronave de alerta antecipado KJ-600. A escolha chinesa é ainda mais relevante porque o KJ-600 é uma aeronave de apoio de grande porte, e as futuras alas aéreas da China também planejam incorporar modelos não tripulados, similar aos planos da Marinha dos EUA.
Essa situação coloca a Marinha dos EUA em uma posição incomum. Após investir anos e recursos consideráveis para superar os problemas iniciais do lançamento eletromagnético, e enquanto nações como a China e a França adotam a tecnologia em seus novos porta-aviões, a Casa Branca questiona se o quarto navio da classe Ford deveria retornar a um sistema que os Estados Unidos começaram a substituir com o USS Gerald R. Ford.
Perguntas Frequentes
O que são catapultas eletromagnéticas (EMALS)?
As catapultas eletromagnéticas, ou EMALS (Electromagnetic Aircraft Launch System), são sistemas avançados usados em porta-aviões para lançar aeronaves. Elas utilizam motores lineares eletromagnéticos para acelerar as aeronaves de forma mais controlada e eficiente, substituindo as antigas catapultas a vapor.
Por que Donald Trump quer mudar o sistema de lançamento?
Donald Trump argumenta que as catapultas eletromagnéticas são excessivamente complexas, caras e difíceis de reparar em alto-mar, preferindo a simplicidade e a suposta facilidade de manutenção das catapultas a vapor. Ele cita problemas iniciais de confiabilidade do sistema e supostas preferências de militares da Marinha.
Quais são os principais desafios de substituir o EMALS por catapultas a vapor no USS Doris Miller?
Os desafios incluem a incompatibilidade de projeto, pois o USS Doris Miller foi concebido para alta geração elétrica do EMALS e não para a infraestrutura de vapor. A General Atomics, fabricante, alerta para riscos significativos de custo e cronograma, além do fato de que o trabalho de instalação já está quase 50% concluído e a indústria americana não produz catapultas a vapor desde 2009.
Outros países usam EMALS em seus porta-aviões?
Sim, a China, por exemplo, adotou catapultas eletromagnéticas em seu mais novo porta-aviões, o Fujian, que já as testou com caças e aeronaves de alerta antecipado. A França também tem planos de adotar essa tecnologia em seus futuros navios, demonstrando uma tendência global de uso do EMALS.
