Exposição no Museu da Imigração celebra a trajetória de Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo, que transformou a arte do bordado em expressão reconhecida internacionalmente.

Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo, mãe da renomada dupla de artistas Osgêmeos, deixou um legado único ao transformar o bordado, antes visto como mero artesanato doméstico, em uma aclamada forma de arte. Sua trajetória de vida, que inclui a criação de quatro filhos e a busca por espaço criativo, é agora celebrada em uma emocionante exposição póstuma.

A mostra “Assim bordei meus sonhos”, em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo até 6 de outubro, reúne cerca de 100 obras produzidas ao longo de mais de quatro décadas. A iniciativa, que conta com a parceria do consulado da Lituânia, país de origem da família, trouxe um reconhecimento tardio, mas profundamente significativo, para a artista.

Margarida, que faleceu em 3 de agosto aos 82 anos, teve a oportunidade de saber sobre a exposição pouco antes de partir, um fato que, segundo seu filho Gustavo Pandolfo, serviu como um “melhor remédio”, conforme informação divulgada por NeoFeed.

Bordado: Da Tradição Familiar à Expressão Artística

Durante muito tempo, o bordado em ponto cruz, com seus motivos florais e geométricos, foi associado exclusivamente ao artesanato doméstico. Era um trabalho valorizado como habilidade feminina, mas raramente reconhecido como uma verdadeira expressão artística ou suas autoras como artistas. Margarida Pandolfo, no entanto, desafiou essa percepção.

Ela bordava nas brechas da vida, entre as responsabilidades com o trabalho, o cuidado dos filhos e a casa. Em sua família de imigrantes lituanos, o bordado também era uma forma de preservar uma herança cultural. Para Ana Paula Cavalcanti Simioni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o bordado era uma “forma de educação ética do corpo e também de imposição de uma moral de feminilidade sobre as mulheres”, reforçando a ideia de que a prática “deixava as mulheres mais concentradas, detalhistas e calmas.”

Diferente da maioria das mulheres de sua geração, Margarida entendia o valor artístico de suas criações, um fator crucial para que sua obra fosse cuidadosamente preservada pela filha Adriana, que não seguiu carreira artística. Segundo Gustavo Pandolfo, a exposição é um retrato da mulher por trás dos bordados: “Queríamos contar quem é a Margarida, quem é a nossa mãe. Essa mulher que bordou não só o trabalho dela, mas bordou quatro filhos, bordou uma história muito linda.”

A Busca por Materiais e a Influência na Família

Margarida teve o primeiro contato com a arte através da música clássica e óperas que preenchiam sua casa na infância, por influência do pai. Seu interesse pelo desenho surgiu cedo, mas a falta de recursos impediu que frequentasse aulas extras. Anos depois, já casada, recusou um convite do tio, o pintor Nicanor Ferracciu, para aprender pintura, devido às convenções sociais da época que consideravam inapropriado que uma mulher casada passasse horas sozinha com um homem, mesmo que da família.

O bordado, ensinado por sua avó Ona, tornou-se seu principal meio de expressão. Embora as circunstâncias tenham limitado sua própria formação, Margarida fez questão de que seus filhos, incluindo Gustavo e Otávio Pandolfo – os famosos Osgêmeos –, tivessem todas as oportunidades. “Ela era muito curiosa e incentivava isso em nós. Levava-nos para ver exposições, fazer cursos… E fomos, um dia, conhecer o ateliê do Volpi”, recorda Gustavo. Em uma dessas visitas, Alfredo Volpi chegou a presentear Margarida com o cartaz de uma exposição, que ela transformou em bordado.

Sua criatividade não se limitava ao tecido. Margarida transformava bolos em cenários elaborados, inventando decorações com o que tinha à mão. Em um vídeo exibido na mostra, ela narra como tingiu pedaços de plástico para montar a lona de um circo sobre um bolo, demonstrando sua engenhosidade e paixão pela criação.

O Renascimento Artístico Aos 61 Anos

O reconhecimento de Margarida como artista começou a se consolidar quando ela tinha 61 anos. No início dos anos 2000, com os Osgêmeos já aclamados internacionalmente, o curador Luiz Nogueira descobriu seus bordados. Ele propôs que Margarida reinterpretasse, em ponto cruz, um desenho criado pelos filhos. O resultado foi a obra “A Moça, a Borboleta e o Querubim”, que foi selecionada para a Bienal Naïf de Piracicaba.

Essa foi a primeira vez que seus trabalhos, antes restritos ao ambiente doméstico, circularam no circuito artístico. Um ano depois, no dia em que completou 62 anos, Margarida recebeu um convite para integrar a delegação brasileira na 7ª Bienal Têxtil de Kaunas, na Lituânia. Nos anos seguintes, ela desenvolveu uma série de trabalhos em colaboração com os Osgêmeos, transformando em bordados tanto desenhos dos filhos quanto criações próprias.

Suas obras passaram a ser exibidas em exposições no Brasil e no exterior, consolidando um reconhecimento que chegava após décadas dedicadas quase exclusivamente à família. Margarida expressou seu sentimento de redescoberta em um filme exibido na exposição: “Eu tive quatro filhos, eu parei por causa deles. Só que agora eu sinto que renasci por causa da arte.” Gustavo complementa essa visão: “Eu acho que ela sempre se enxergou como uma artista. Ela só precisava encontrar esse tempo para começar.”

Perguntas Frequentes

Quem foi Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo?

Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo foi uma artista brasileira, nascida em família de imigrantes lituanos, que se destacou por seus bordados em ponto cruz. Ela é mãe dos famosos grafiteiros Gustavo e Otávio Pandolfo, que formam a dupla Osgêmeos.

Qual a relação de Margarida Pandolfo com os Osgêmeos?

Margarida Pandolfo é mãe de Gustavo e Otávio Pandolfo, a dupla de artistas Osgêmeos. Ela incentivou a paixão pela arte nos filhos desde cedo e, posteriormente, colaborou em diversas obras de bordado com eles, reinterpretando desenhos dos Osgêmeos em sua técnica.

Onde está em cartaz a exposição “Assim bordei meus sonhos”?

A exposição “Assim bordei meus sonhos” está em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo. A mostra pode ser visitada até o dia 6 de outubro e reúne cerca de 100 obras de Margarida Pandolfo, além de fotografias e documentos da família.

Quando Margarida Pandolfo começou a ser reconhecida como artista?

Margarida Pandolfo começou a ser reconhecida como artista aos 61 anos, no início dos anos 2000, quando seu bordado “A Moça, a Borboleta e o Querubim” foi selecionado para a Bienal Naïf de Piracicaba. Posteriormente, ela participou de bienais internacionais e colaborou em exposições com seus filhos, os Osgêmeos.